Sexta-feira, Dezembro 23, 2011

Não abri os olhos III

E se, por via da total inactividade e consequente poupança de energia, conseguisse ignorar completamente a fome? Não abri os olhos. Concentrei-me no estômago, que existia empurrado contra o colchão, entre eles o lençol, a pele e demais tecidos. Imaginei-o vazio e eu lá dentro, pequeno. Estava escuro. Equilibrava-me na parede húmida, cavernosa, irregular, vermelha viva, viva. A superfície escorregadia e lá no fundo uma pequena poça de líquido esverdeado a emanar vapores ácidos. O cheiro: impossível. A poça cada vez mais pequena, como o fundo de uma banheira entupida cujo ralo deixa passar a água muito devagar. Formava-se uma bolha de ar no centro e, quando rebentava, sumia-se mais um pouco do líquido pelo orifício. Nesse instante um barulho enorme e salpicos pelas paredes. Não abri os olhos. Percebi os ruídos que o meu estômago produzia, mas decidi ignorá-los.


O quarto quente, a fome, a cama, eu e o quarto. Levitei e saí do meu corpo, não abri os olhos. Abandonei-me, subi até ao tecto, sentei-me no candeeiro e fiquei a observar-me. Os olhos fechados, costas nuas, lençol pelas pernas, a cara esborrachada contra a almofada. “O que fazes aí?” – perguntei. “Daqui vejo crianças lá fora, uma bola a saltar à frente delas e gritos. Jogam à bola.” Sim, de facto distinguia os sons da futebolada que acontecia não muito longe da minha janela. De repente era eu a bola. Não abri os olhos.

0 comentários: