
http://www.ontemvi-tenoestadiodaluz.blogspot.com/2012/01/um-orgulho-muito-meu.html
Foto de Rafael Martins
De vez em quando...
Era pontapeado de todas as formas possíveis. O jogo era uma anarquia completa, as crianças disputavam-me como se do septo mais sagrado se tratasse. Levantava voo e sem cair no chão era de novo pontapeado. Apesar de tudo eram suaves, os impactos de que ia sendo alvo, mesmo quando me despenhava no chão e saltitava e rodopiava à espera de outro pontapé, não sentia senão suaves embates. Parece que tudo se passava a uma velocidade muito menor do que a real. As crianças tentavam jogar o mais rapidamente possível, como tem de ser, mas a minha percepção era de que tudo acontecia lentamente. A distância a percorrer entre o pontapé vitorioso e a baliza improvisada na porta da garagem demorava tempo suficiente para ir apreciando a paisagem. As obras, a roupa estendida, a vizinha à janela a sacudir a toalha do almoço, o vizinho a passear o cão irritante. Não abri os olhos.
Do candeeiro, via-me inactivo, quase que conseguia ouvir o meu cérebro a ordenar-me que me levantasse. Os barulhos do estômago: desistiram de mim. Mergulhei-me. Não abri os olhos. Continuei a respirar para cima da almofada húmida de baba. Sentia o cabelo despenteado, a barba espetava-se no lençol. O quarto cada vez mais quente, a fome, a cama e eu e o quarto. Apurei todos os sentidos na tentativa de absorver algo que me levasse noutro devaneio. Divertia-me o exercício. Saia de mim, mas ali continuava. Não abri os olhos.
Não abri os olhos: http://www.rogerajacto.blogspot.com/2010/11/nao-abri-os-olhos.html
Não abri os olhos II: http://www.rogerajacto.blogspot.com/2011/10/nao-abri-os-olhos-ii.html
Não abri os olhos III: http://www.rogerajacto.blogspot.com/2011/12/nao-abri-os-olhos-iii.html
"Estamos tão perto uns dos outros. Somos contemporâneos, podemos juntar-nos na mesma frase, conjugarmo-nos no mesmo verbo e, no entanto, carregamos um invisível que nos afasta. Ouvimos os vizinhos de cima a arrastarem cadeiras, a atravessarem o corredor com sapatos de salto alto, a sua roupa molhada pinga sobre a nossa roupa a secar; ouvimos a voz dos vizinhos de baixo, dão gargalhadas, a nossa roupa molhada pinga sobre a roupa deles a secar; cheiramos as torradas dos vizinhos do lado, ouvimo-los a chamar o elevador e, no entanto, o nosso maior problema não é apenas não nos reconhecermos na rua. O nosso problema grande é estarmos convencidos que os problemas deles não nos dizem respeito. A nossa tragédia é acharmos que não temos nada a ver com isso.
Há três ou quatro anos, caminhava com um conhecido no aeroporto. De repente, ouviu-se um estalido. Ele agarrou-se ao peito com as duas mãos, caiu de joelhos e, pálido, esperou por morrer. Não morreu. Tinha-lhe rebentado um isqueiro no bolso da camisa. Aliviado, encostado a um balcão, a beber um copo de água, explicou que esse ardor repentino e esse susto pareceram-lhe um ataque cardíaco. Nunca tinha tido um ataque cardíaco antes, por isso confiou em descrições vagas, a que nunca tinha realmente prestado muita atenção.
Há alguns anos também, talvez um pouco mais do que três ou quatro, tinha acabado de participar num jantar cordial, reconfortante. Toda a gente estava bem disposta, à porta dos anfitriões, longa despedida, graças, à espera de táxi. De repente, tocou o telefone de um senhor com quem tinha estado a conversar durante todo o serão. Ninguém reparou nesse telefonema até ao momento em que o senhor começou a chorar convulsivamente. Ficámos todos a olhar sem saber como chegar até ele. Tínhamos braços, estendíamo-los na sua direcção, mas continuavam distantes.
Irritamo-nos com a existência uns dos outros. Fazemos sinais de luzes àquele homem com setenta anos, num carro dos anos setenta, que anda a setenta quilómetros por hora na auto-estrada. Contrariados, esperamos por aquela pessoa que atravessa a passadeira, enchemos as bochechas de ar e sopramos. Impacientes, batemos no volante. Daí a minutos, depois de estacionarmos o carro, somos essa pessoa a atravessar a passadeira. Da mesma maneira, daqui a algum tempo, não muito, seremos esse homem com setenta, dos setenta, a setenta. O tempo passa. Se deitarmos lixo para o chão, alguém o apanhará.
Um amigo que teve um AVC, que passou por uma reabilitação profunda, que enfrentou a morte e a paralisia, depois de anos de fisioterapia, depois de esforço gigante e sofrimento gigante, falou-me da forma como esse susto muda tudo. Passa-se a apreciar aquilo que realmente importa. A imensa maioria das preocupações transformam-se em luxos ridículos, desprezíveis, alimentados pela cegueira. Após essa experiência de quase morte, ganha-se uma nitidez invulgar, que, no entanto, esteve sempre lá. Para percebê-la, bastava levar a sério a promessa de transitoriedade de tudo e, também, levar a sério essa palavra, esse planeta: o amor. Ao ouvi-lo, fui capaz de entender aquilo que dizia. Depois, também fui capaz de entender quando me disse: mas, sabes, ao fim de algum tempo, esquecemo-nos, voltamos a tomar tudo por garantido e voltamos a cometer os mesmos erros.
Repito para mim próprio: estamos tão perto uns dos outros. Não há nenhum motivo para acreditarmos que ganhamos se os outros perderem. Os outros não são outros porque levam muito daquilo que nos pertence e que só pode existir sendo levado por eles. Eles definem-nos tanto quanto nós os definimos a eles. Eles são nós. Eles somos nós. Se tivermos essa consciência, podemos usar todo o seu tamanho. Mesmo que pudéssemos existir sozinhos, de olhos fechados, com os ouvidos tapados, seríamos já bastante grandes, mas existe algo muito maior do que nós. Fazemos parte dessa imensidão. Somos essa imensidão que, vista daqui, parece infinita. "
Quando soube que aí vinhas fiquei muito feliz. A tua mãe, brilharam-lhe os olhos como em poucas ocasiões… Vou guardar o sorriso dela, deitada na marquesa, a doutora com o aparelhómetro em cima da barriga e umas imagens difusas num ecrã à nossa frente. A doutora cheia de certezas: “É uma menina! Se não for, pago o enxoval” A tua mãe a olhar para mim, os olhos dela a brilhar - já tinha dito que brilhavam? - a procurarem os meus e o sorriso. O sorriso… Linda a tua mãe a sorrir assim. Tu também serás, linda!
Retribui o sorriso, emocionado e fiquei a ver a médica a escrever: M-E-N-I-N-A, enquanto me passava tanta coisa pela cabeça… Toda a gente dizia que ias ser um menino. Teorias, teorias e todas pareciam apontar no mesmo sentido: menino! Mas sabes?! Só tínhamos nome para menina. Há muito que tinhas nome, sabias? Tu ainda uma suposição, um ténue esboço, uma longínqua hipótese e já tinhas nome. “Se tiver uma filha há-de ser Maria.” Depois a tua mãe e eu e: “Se tivermos uma filha: Maria.”
Enfim, depois lembrei-me da tua avó… Sabes que és Maria por causa dela? Não a vais conhecer, mas vou-te falar dela e vais ver: orgulho. Ia ficar tão contente a tua avó… Vais ter o sorriso dela e da tua mãe.
Tão feliz, a tua avó, tão feliz. E o sorriso da tua mãe, os olhos a brilhar e eu: “Maria!”
Continuei acordado. Não abri os olhos. Ouvi a porta fechar-se e aí sim, resolvi levantar-me. Contudo, o som longínquo da gaita de um Amola Tesouras impediu-me de saltar da cama, irrompeu como que a travar a ordem que já havia dado às pernas. Fiquei a ouvi-lo. Não abri os olhos. Imaginava o esvoaçar do cortinado, pois sentia a brisa fresca a invadir o quarto e a arrepiar-me, ao mesmo tempo que a melodia inconfundível me inebriava e transportava para mundos imaginários. Acontece-me. A rara melodia da gaita do Amola Tesouros parece que não é de cá. Aliás, o próprio Amola Tesouras encerra uma origem enigmática. Imagino-o numa manhã fria a sair de casa, uma casa baixinha, no campo, a porta envolta numa videira e um banco ao lado. A luz do dia ainda pouca, pega na bicicleta, gaita ao pescoço presa por uma fita de cabedal, e vem por entre o nevoeiro e as luzes ainda acesas dos candeeiros velhos até à vila, sempre a descer pela estrada de pedras, porque mora num monte. Chega com a luz do dia, ninguém sabe o seu nome, não deve ter família. Toca pela primeira vez a gaita no silêncio da vila, emprestando-lhe uma banda sonora perfeita. Já sem o nevoeiro, sobre a calçada escura vai por aí fora, de mão dada com a bicicleta. Ruas, ruelas e ninguém com uma tesoura para amolar. Nunca vi um Amola Tesouras a amolar uma tesoura. Não sei se já vi um Amola Tesouras. O som da gaita sim: “Tiruriruriiii… Tiruriruri…” Ouve-se de quando em vez, de vez em quando, não sei quando. Nunca se está à espera quando se ouve aquele som. E o som mais próximo, mais nítido, não oiço mais nada que não aqueles tubos paralelos, do maior para o mais pequeno, do mais pequeno para o maior, do grave para o agudo, do agudo para o grave. Não abri os olhos.
Será que dormitei? Ainda ouvia o som, ao fundo, quase que o vi a ser levado pelo vento, em tons amarelo-torrado, o som. Não abri os olhos. Estava acordado, devia levantar-me. Que horas seriam? “Que dia é hoje?” Perguntei-me sem querer saber a resposta. O quarto menos fresco, o sol já devia projectar-se no pavimento a imitar madeira. Continuava deitado, o corpo imóvel, esparramado, mas a mente em devaneios, a absorver. Não abri os olhos.
“Chega! Vou levantar-me”. Mas primeiro abro os olhos. O que verei quando os abrir? Lençóis, pedaço de cama, tapete, parede branca, chão… Hei! Hum! Que cheiro é este? Peixe a assar, há um peixe numa grelha a libertar aromas que enchem bocas de água. Lambi o lábio superior, parece que assim passei a sentir melhor o cheiro, ainda suave, que agora entrava pelo quarto. Não abri os olhos. Vi o peixe na grelha, escalado. Pedras de sal em cima. Depois vi-o no barco, acabado de pescar, a saltar ainda, reflectindo luz reflectida pela lua das cinco da manhã. A luva do pescador, de borracha, a envolvê-lo, a atirá-lo para junto dos seus pares, companheiros de cardume, agora agonizando, aos saltos, encandeados pela luz do barco, amarela, sem perceberem nada. Vi-o momentos antes da rede o içar para um mundo que não o seu, no indigo daquele mar, quase estuário ainda. Vi-o, com a voracidade que só ele parecia ter, a engolir de uma vez um mais pequeno, distraído, assustado com o aproximar de um vulto enorme à superfície. O vislumbre da ponta do cigarro do pescador, assomado na proa, não o demoveu de perpetrar aquela que seria a sua última caçada. Não abri os olhos.
Percebi que tinha fome, devia ir comer. Levantar-me e ir comer era o que devia fazer. Dizia-me o corpo, algo cansado de lutar contra mim, que continuava ali, espalhado pela cama. O quarto quente já, o dia a meio e eu: os olhos fechados. Não abri os olhos.
Não abri os olhos : http://rogerajacto.blogspot.com/2010/11/nao-abri-os-olhos.html