Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Cinco esboços…
Havia tanto que queria escrever e falta-me tempo. Esse mesmo, inimigo da eternidade, que se vai expirando tanto mais rapidamente quanto empenhados somos a tentar aproveitá-lo. Acontece-me às vezes chegar à noite e olhar para o dia que passou com frustração… Mais um dia em que não fiz nada, não ouvi música, não toquei, não fui a um concerto, não escrevi, não discuti nada com ninguém, não vi sequer um filme… Não fiz nada, fiz umas coisas, produzi PIB, mas não fiz nada daquelas coisas capazes de travar a cavalgada do tempo. Amanhã tenho isto e aquilo para fazer e não me posso esquecer de tal coisa assim assim… Betonar, betonar!!!
Depois desta introdução a cheirar a desculpa esfarrapada, queria então deixar aqui uns esboços do que podiam ter sido textos se eu tivesse tido tempo/paciência/disposição/não desperdiçasse tempo a ver a novela/achasse que era capaz de os escrever, no limite. Então cá vai:

1. Cuba Libre?
O “all inclueded” que a pulseira de plástico possibilita, as águas quentes e cristalinas em paisagens com palmeiras e coqueiros, os constantes cocktails e as lagostas grelhadas acontecem em muitos lugares anunciados por agências de viagens vendedoras de sonhos, férias perfeitas, evasão, divertimento, excitação e tantos outros vocábulos utilizados em panfletos apelativos… Mas ir a Cuba é mais do que isso tudo. (Como se isso tudo não fosse já muito bom…)
Apregoam-se diferenças sociais enormes em vários países, vivem-se tempos em que o consumismo ocidental desacelera timidamente, embora não me parece que vá ser essa a tendência no futuro. Em Cuba odeia-se e inveja-se o consumismo ocidental. Em Cuba adora-se e detesta-se o regime. Em Cuba não falta nada a ninguém, mas ninguém tem nada. É toda uma tentativa de equilíbrio disfarçado, pintado de casas velhas, carros antigos e fumegantes e música dedilhada.
Fui a Cuba e não vi Fidel, assim como hei-de ir Roma sem ver o papa, nem sequer questão faço... Mas em Cuba vi Buena Vista Social Club, que já é muito! Assim como já tinha visto, não o Barack, mas Count Basie, no Blue Note… (Gabarolas?! Não, orgulhoso!)
2. @belem.pt
Deve ser a primeira vez que venho aqui falar de política. Política que é como quem diz aquilo que supostamente fazem uns senhores de gravata no tão bem emadeirado meio círculo. Venho indignar-me! Então o presidente, que eu pensava que existia para por água em fervuras de cozinhados acres feitos de hábeis retóricas, vem agora ele próprio incluir especiarias fétidas num dos, já por si, menos conseguidos cozinhados políticos dos últimos tempos? Porquê?
Esta minha infeliz analogia culinária e a sua complicada ou impossível interpretação é proporcional à confusão instalada na minha pobre cabecita de contribuinte médio, atónito e incapaz de perceber o que é que se passou afinal. Mas foram escutas ou e-mails violados? Ou foram bufos metamorfoseados em moscas que, em voos rasantes à cabeça do Anibal, captaram ondas sonoras que eram informações de estado? Isto enquanto os seus mil olhos iam reflectindo o iogurte com aroma de banana que Dona Maria tomava para o lanche. Quem é que ainda nunca disse: “gostava mesmo de ser uma mosca…”?
3. Legislativas e Autárquicas
Deve ser a primeira vez que venho aqui falar de política. Espera, é a segunda!
O Sócrates não tinha oposição, o Pinto muito menos. Mais do mesmo. É perfeitamente normal… Pessoalmente, não faço comentários, pois embora só tenha dois ou três leitores, não gosto de me manifestar no que toca a política. "Então se não fazes comentários, para quê a alusão?" Perguntam os dois ou três leitores. Porque aqui mando eu e faço o que quiser! E digo mais, se querem ver política discutida de forma séria e idónea vão a um blogue que eu cá sei. Ou vão à merda, que é quase a mesma coisa…
4. Noite da relva
Não interessa como, quem, nem por quê. Queria apenas tentar fotografar um momento vivido numa das últimas noites de um sábado.
Houve licores entrelaçados em brumas que pareciam pedaços de madrugada, houve notas ao lado e notas quase no tom em cordas e palhetas vibrantes. Houve ruídos elevados a frases de jazz e grunge por quem se envolvia e se deixava fundir numa embriaguez colectiva, salpicada de realidade por tons de azul. Insuficientes porém, para impedir a levitação daquele inebriamento que se partilhava. Naquele momento sim, o tempo parou, embora a noite se tenha esfumado num instante...
5. Futsal
Aproveito só para assinalar que, pela primeira vez, o EFC se encontra no lugar cimeiro da classificação no campeonato nacional da 3ª divisão nacional, série C. (Embora ainda só tenha havido um jogo, ehehe). Sobre a taça de Portugal, não sei de nada…

Domingo, Outubro 11, 2009

Não começou mal...


Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Spam, pah!!!

Era mais uma daquelas viagens madrugadoras com destino a Lisboa. O sol brilhava e ia-me encandeando docemente ao reflectir-se nas águas da barragem de Montargil. Adivinhava mais um dia comprido, com reuniões, decisões, chefes, subempreiteiros, donos de obra e demais intervenientes. Perdia-me em planeamentos e métodos construtivos e apenas o som da rádio me desviava a atenção de quando em vez. Acontece-me há uns anos, tantos quantos trabalho, que não são assim tantos (ainda bem), viajar de manhã e ter como companhia além dos meus devaneios, introspecções e quantidades absurdas de sono, os radialistas da antena 3, a emissora jovem nacional… As manhã da 3, programa a que me refiro mais especificamente, tem a virtude de me manter acordado muitas vezes, mas sobretudo de me fazer sorrir, rir (talvez até fazer figuras menos escorreitas aos olhos do gajo no carro da fila ao lado) e o dom incrível de diminuir os aborrecidos tempos de viagem.
Desta vez, à semelhança de umas tantas outras, peguei no telemóvel e tentei sem esperança participar no programa “pontapés na gramática”. Para surpresa minha, ao invés do esperado sinal de interrompido, o som foi o correspondente a uma chamada bem sucedida. De pronto fui atendido por uma simpática voz feminina… Encostei o carro ali depois da ponte do Rasquete e fui avisado, depois de revelar nome e origem geográfica, de que ia entrar em directo para participar no programa. Ok, não é nada de extraordinário: é só ouvir um diálogo e identificar uma imprecisão gramatical ou qualquer coisa do género. Ainda assim, não deixei de ficar algo ansioso e fui antecipando respostas cliché a perguntas do mesmo género, naturalmente inevitáveis na estética do programa… Ia encontrar na linha, aqueles que normalmente só me chegam via onda rádio espalhada pelo éter: o Luis Oliveira e a Joana Dias. Dois radialistas bem-dispostos, com estilos diferentes, ele mais cáustico, mais irónico, mas com muita piada. Ela mais naive, mais simpática, compreensiva. Ficam bem um ao outro, gosto da combinação, completam-se… Enfim, voltando ao episódio: sou anunciado, “Para jogar hoje connosco temos o Rogério Alves, que nos liga de Ponte de Sor. Bom dia Rogério.” Começou por dizer a Joana, na sua voz doce, límpida e adivinhar um sorriso no rosto. Respondi com todo o entusiasmo que a minha timidez oral permitiu: “Bom dia!” “És do lado de dá ou do lado de lá da ponte?” Esta ninguém antecipa. “Uhm, ehh, do lado de cá acho eu…” “Mas há uma ponte, ou não?” “Uhh, sim, a ponte sobre o rio Sor. “Ó Rogério, tens o nome de um famoso…” Interrompe o Luis. Esta até antecipei. “Sim, mas não tenho nada a ver com ele…” “Nem na cor?” “Muito menos na cor, sou mais para o vermelho. Verde, só o do Eléctrico de Ponte de Sor” Apontamento que me apresentou definitivamente, a puxar ao bairrismo, a assumir o benfiquismo à nação… Eheh, toma!
Depois da introdução, engraçada por sinal, chegou a hora de ouvir o diálogo… Tinha que identificar um estrangeirismo. O diálogo não foi dos mais felizes, já nem me lembro bem, mas a expressão xixi cocó foi utilizada abundantemente, o que por si só não abona a favor da composição… Mas enfim, a certa altura lá ouvi uma palavra estranha. Mas, não sei se foi pelo contexto no qual enquadrei o exageradamente adornado diálogo, percebi-a mal. “Epah, não estou a perceber… Parece-me stand, ou stunt, ou stant, não conheço este estrangeirismo.” Disse timidamente à procura de misericórdia. Entretanto ia pensando: “Porra, que na única vez em que consigo jogar vou-me espalhar ao comprido, que vergonha…” “Então ouve lá outra vez”, disse a benevolente Joana. Voltei a não perceber, “Ehh, uhh, pois… Deixa de me fazer… Stant? Não conheço, será perseguição ou assim, pelo contexto…” “Não, sabes aquelas mensagens no e-mail…” Foi então que um daqueles raios de luz reflectidos pelo espelho de água me acertou finalmente na mona e percebi. Interrompi gloriosamente: “Ahh! Spam. S-P-A-M. Spam!” tarara-ra-tarammm, ouviu-se a musiquinha a assinalar vitória. “Acabaste de ganhar o livro Rebeldes da não-me-lembro-o-nome-da autora-agora!” “Ok, obrigado. Queria só aproveitar para enviar muitos cumprimentos…” Muitos?! Quantos?” Interrompe o Luis, num tom jocoso. “Epah, pelo menos dois, para vocês. Um para o Markl, de quem sou fã. E para o pessoal todo aí. Vocês têm sido uma boa companhia nas minhas viagens pela manhã já há algum tempo…” ”Obrigada. E viajas muito?” “Sim, ando sempre fora de casa em trabalho.” E o que é que fazes?” Lá revelei a profissão e que já tinha estado no Algarve, Leiria e agora Lisboa. “Pois, és um nómada dos tempos modernos.” Concluiu o Luis acertadamente.””Pois”, respondi a suspirar. “Olha, então beijinhos, boa viagem.”Rematou a Joana. Respondi: “beijinhos e abraços…” Continuei então a jornada até mais um dia de lavoura: reuniões, decisões, chefes, subempreiteiros, donos de obra e demais intervenientes…
Foi um episódio engraçado, como giro foi também chegar à obra e o fiscal me dizer: “Epah, agora já és famoso, até falas pá rádio…” E eu tudo bem…

Terça-feira, Setembro 08, 2009

LISBOA, por entre as sombras e o lixo



Lisboa, Cais do Sodré:
Quando chega a noite
Com suas caras fugidias,
Olhos dilatados pelo assombro
Deixamos que a cidade nos invada,
Fantasma a embriagar-nos de luz e côr
Num sonho de mil e uma fantasias,
O desejo cruzando os neons
Em projecções plásticas...

O dealer roubou-me,
Levou-me a alma!
Rai's parta o dealer!

E se depois, ao acordarmos,
Acaso reparamos na escuridão que nos cerca,
No leve restolhar que vem do lúgubre canto,
Somos tomados por uma enorme letargia
Que nos deixa permeáveis
Ao frio da madrugada.
É então que as ratazanas,
Abandonando as trevas,
Ficam estáticas, silenciosas,
A verem-nos ir, equilibrando o passo,
Por entre as sombras e o lixo...

O dealer roubou-me,
Levou-me a alma!
Rai's parta o dealer!

Táxi!Casal Ventoso, se faz favor!


Adolfo Luxuria Canibal/ Carlos Fortes

Terça-feira, Setembro 01, 2009

De volta a Lisboa


As vicissitudes da vida laboral trazem-me de volta a Lisboa. Lisboa tem acontecido em mim de várias maneiras: desde a cidade enorme, visitada muito raramente em que as “guas” (gruas) e os semáforos eram o principal ponto de interesse e admiração, passando pela cidade enorme da qual o mapa mental surgia muito desfocado, na altura em que o jovem de 18 anos da província, inchado de moral, chegou para ser estudante e depressa se viu pequenino, insignificante e aprendeu a olhar por cima do ombro, a desconfiar. Mas onde cresceu também, onde se começou a projectar o homem (projectar - que adequado, mais um pouco e estou a utilizar vocábulos tipo alicerces ou fundações…). Nos anos de estudante fui aprendendo, para além das matérias, Lisboa. Fui aprendendo Lisboa. Inicialmente desconfortável e fria, suja e claustrofóbica, foi-se revelando com o passar dos anos cada vez mais maravilhosa e excitante. À medida que as descobertas aconteciam ia-me apaixonando por ela sem saber. Ainda eu verbalizava que não gostava de Lisboa e já gostava dela sem saber, contrariando-me. Depois, a vida nómada que iniciei quando abracei a profissão que me tem, levou-me de Lisboa sem que tivesse tido sequer tempo de me despedir. Abruptamente desci a A2 sem olhar para trás e só cá voltei esporadicamente, desde então.
Agora estou de volta e vejo-a de outra maneira… Por enquanto ainda é a nostalgia que me domina à passagem por certos locais onde, nos melhores tempos da existência dita normal, segundo dizem, passei, passeei, estudei, joguei, namorei, corri, bebi, vi, escutei, observei, admirei, cheirei, senti, enfim, vivi. É com um estúpido sorriso nos lábios que vou passando por onde passava distraído antes, com um objectivo, com um lugar para estar, onde alguém me esperava, onde algo acontecia, onde tinha que ir, fazendo agora o caminho a observar em vez de ver, a observar o que antes via apenas… (to be continued?)

Terça-feira, Julho 21, 2009

Miradouro de Luz

Outro dia passei pela Graça e por coincidência, dias depois estava a discutir este poema. Como tem estado tão presente, fui buscá-lo à gaveta:

O alinhamento descuidadamente perfeito
Dos lares que jazem na luz nacarada
Reclusa ocasional dos olhos ébrios
Do transeunte que desliza satisfeito;

O brilho adivinhado de um rio,
Um caudal de preces e promessas
Rasgado pela frieza distinta do aço,
Enquanto a figura promete um abraço;
Um castelo iluminado à força
Com a luz de glórias de outrora,
Com lampiões sujos de agora
Que reclamam o trono ao astro;
O astro encoberto sem estranheza,
Saudosa a sua calorosa frieza
Aquece, ilumina e exalta
Doutrina que à noite não faz falta.

Terça-feira, Junho 02, 2009

Nha terra Santo Antão...

"És de Pico Vermelho ou de Tope Agudo?" Perguntou o pai à mãe do escritor maliciosamente, na noite em que o conceberam. Explica depois na introdução à sua obra, que Pico Vermelho e Tope Agudo são nomes de localidades da ilha de Santo Antão, mas também podem ser referências a uma zona muito particular da anatomia feminina. A mãe acabou por perceber o trocadilho um pouco mais tarde nessa noite, sem que fosse preciso gastar muito crioulo.
No prólogo, a viagem no barco de São Vicente a Santo Antão é descrita com mestria, habilidade literária e sobretudo com um natural conhecimento de cada vislumbre. O meio de comunicação de Santo Antão com o mundo é o ferry boat, interface de troca das fracas produções agrícolas da ilha com os produtos que chegam de S. Vicente e do estrangeiro…. “Apesar do mau tempo a viagem estava a decorrer sem incidentes mas não estava sendo nada agradável. No seu esforço para vencer a fúria do vento e navegar em linha recta o barco enterrava constantemente a proa nas vagas tumultuosas e quando a levantava toda a sua estrutura protestava ruidosamente. Era a sua primeira viagem daquele sábado e estava completamente cheio. São Vicente retribuía a generosidade de Santo Antão enviando-lhe em troca do grogue e das verduras que recebia artigos importados do estrangeiro ou confeccionados ali mesmo na ilha.”in A Outra Face da Lei, Nicolau de Tope Vermelho.


A nossa travessia, felizmente, foi muito menos turbulenta, apresentando-se o mar de canal excepcionalmente calmo. Entre a comitiva havia ainda resquícios de uma noite mal dormida, do cansaço da viagem anterior e a presença de álcool, em alguns sistemas sanguíneos, era ainda evidente e amplificada pelo bambolear do “Armas” no azul límpido das ondas crioulas. Tanto a excitação como a ansiedade estavam a ser vencidas pelo cansaço, mas a calorosa recepção no cais e a entrada no pitoresco autocarro Toyota serviu de despertador começando a fazer-se notar os mais entusiasmados: “Uma Vergonha, vocês são uma vergonha” – era o cântico que se dedicava aos que tiveram dificuldade em acordar e quase nos fizeram perder o barco (não vou revelar identidades) …
Foi sobretudo quando a viatura iniciou a viagem que nos levaria de Porto Novo a Ponta do Sol, que começou a verdadeira descoberta, a verdadeira lição de vida que, sem que suspeitássemos, ali fomos experienciar. O primeiro deslumbramento foi a paisagem, iniciámos a subida da primeira montanha e rapidamente as máquinas fotográficas foram desembainhadas como espadas num campo de batalha, na vã tentativa de apreender a beleza dos quadros que se desenhavam à nossa frente em catadupa: de um lado era o mar lá em baixo, que banhava a montanha negra e a pequena povoação de casas toscas, inacabadas, do outro eram as escarpas e os vales que se iam tornando cada vez mais impressionantes de tão íngremes e aguçados. Seguíamos por estradas que eram serpentes de lava, como que escorrendo organicamente pelas montanhas. O pequeno autocarro parecia não ter dificuldades nas acentuadas subidas e a apertada estradinha de calçada feita pelo suor de militares portugueses há meio século, transmitia-nos um respeito cada vez maior à medida que íamos subindo e olhando lá em baixos os profundos vales. As curvas apertadas e a ravina já aqui… Enfim, já havia quem não estivesse a achar muita piada, mas a destreza do condutor era assinalável. Passados uns altos e baixos percebemos que estávamos em boas mãos e, então, sem receio, pudemos desfrutar cada quimera. Observámos as montanhas, ora em andamento, ora em paragens em locais estratégicos que se afiguravam como miradouros dignos de reconhecimento mundial por uma entidade qualquer tipo UNESCO… As sinuosas montanhas negras pareciam assombradas, tinham farpas de nuvens ao seu redor e eram pontualmente organizadas em socalcos feitos pela mão humana, de onde se erguiam timidamente alguns pés de cana-de-açúcar. Os rasgos feitos pelas ribeiras agora secas, desenham vales fundíssimos e eram interrompidas por imensos diques ao longo dos seus leitos. Chove tão pouco, que é preciso aproveitar cada gota de água! De quando em vez percebe-se o desenho das enormes crateras do que foi um vulcão ao qual se agradece a origem destas terras. A origem vulcânica da ilha transparece em cada uma das esculturais formações geológicas que se identificam. Há para todos os gostos e de todos feitios, numa entropia quase surrealista. Enfim, foi neste maravilhamento colectivo que surgiu a expressão: “Opah isto é o quê? Isto é lindo!”, repetida depois até à exaustão, como é apanágio de certos indivíduos muito engraçados da nossa comitiva… (Pessoa, Serrano e outros palhacitos que tais)



Depois de bebida a beleza paisagística, foi a vez de começar a entender a realidade da ilha e das suas gentes. A percepção da escassez e das condições extremas em que vivem, aliás, sobrevivem, os habitantes do interior da ilha, chegou quando se começaram a observar conjuntos de duas ou três casas, ou habitações, melhor dizendo, em locais praticamente inacessíveis ao comum mortal, em picos de montanha, ou em escarpas abruptas em que de facto habitavam pessoas e animais, sobretudo burros e galinhas. Têm nas imediações dois ou três socalcos roubados à força à montanha, onde cultivam escassos pés de cana-de-açúcar… A pergunta surgia-nos e alguns chegavam a ventilá-la: “Mas como é que esta gente aqui vive? Vivem do quê? Fazem o quê?” O Carlitos vinha ao meu lado no autocarro e muito espontaneamente produz o seguinte pensamento: “Epah, a gente inda diz que tá mal… Lá temos: televisões, playstations, cafés com snoockers e este pessoal aqui sem nada, man…” E acho que está tudo dito!

Após uma breve passagem por Ribeira Grande e de um serpenteio desta vez à beira mar chegámos finalmente a Ponta do Sol. A simpática vila recebeu-nos soalheira com a sua praceta central tão limpinha, o edifício da Câmara de traço colonial e a pequena igreja de costas para o mar. Logo ali, o hotel Blue Bell, que viria a ser a nossa casa nos dias seguintes. Instalámo-nos e ansiosamente nos despenhámos pela vila fora. O que encontrámos foi uma curiosa desorganização de casas por acabar e de calçadas toscas, numa tranquilidade que fazia sentido ali, no sopé da enorme e ubíqua montanha. Ah e uma loja chinesa, “Porra que até aqui!” exclamou-se… Fomos imediatamente conhecer o estádio que íamos inaugurar, as obras ainda decorriam e a azáfama era grande, mas os nossos adversários já se treinavam no relvado.

À medida que nos íamos embrenhando pela vila, percebíamos que a nossa presença não deixava ninguém indiferente. As pessoas iam olhando timidamente e as crianças rapidamente nos começaram a abordar sem receio. Não seria possível melhor recepção… Em nenhum momento houve entre nós qualquer tipo de sensação de desconforto ou insegurança. Depressa compreendemos a humildade e até por vezes ingenuidade daquelas pessoas, que nitidamente mostravam felicidade pela nossa simples presença ali. Não estávamos de todo à espera de uma coisa assim, sentíamos que significávamos mais do que o que somos…



A pluralidade, digamos assim, do nosso grupo, composto por malta do futsal, os mais velhos, três torres do futebol de 2ª divisão e os juniores também do futebol, começava a não se perceber, pois rapidamente começou a reinar um ambiente e um espírito de partilha semelhante a uma verdadeira equipa. Talvez os ares do equador tenham tido alguma influência, mas a realidade é que havia completos desconhecidos à partida, que passados dois dias se comportavam como amigos de longa data. Mesmo com a restante comitiva, desde a equipa técnica e directores, aos representantes do município e freguesias do concelho, a convivência foi sempre salutar, descontraída e até fraterna.

Até ao dia do jogo, Sábado, houve ainda tempo para mais uma incursão de autocarro pela ilha, desta vez para conhecer uns vales mais frondosos do que a generalidade da paisagem. Conhecemos também a vila de Broda, um velho amigo de Ponte de Sor e da sua Câmara Municipal, a quem ele agradece a moderna cadeira de rodas com que se faz deslocar pelas calçadas. De resto, ia-se notando pontualmente as marcas da geminação do nosso município com aquele (Ribeira Grande), em ambulâncias e carrinhas lia-se: “Geminação com o Município de Ponte de Sor”. Soubemos mais tarde pelo Pedrinho, aluno da escola primária de Ponta do Sol e que quer ser engenheiro informático, que os computadores onde dá os primeiros passos nessa matéria foram oferecidos por Ponte de Sor. Ficámos orgulhosos por saber que contribuímos para melhorar um pouco a qualidade de vida daquelas pessoas. Pelos caminhos entoavam-se alguns cânticos de “apoio” sobretudo a Django: “1,2,3,4,5,6,7 com o Django ninguém se mete” e os “pratos” da equipa soltavam as suas piadas. Ao pé de certos cromos é sempre a rir, nem são pratos, são travessas. Eheheh! Alguns ainda conseguiram ir a uma praia próxima, mas de muito difícil acesso, outros mergulharam com os nativos do pontão do pequeno porto de Ponta do Sol e jogaram futebol num improvisado campo de areia negra, para gáudio das crianças com quem partilharam chutos e fintas, cuecas e cabritos…




Quando o dia do jogo amanheceu já todos havíamos percebido que não tínhamos vindo apenas fazer turismo. A dimensão que o evento encerrava tinha-nos escapado inicialmente, mas afinal o assunto era sério, estávamos a participar numa cerimónia de estado. Para aquele país, para aquela região, para toda aquela ilha, a nossa presença ali, na inauguração de um relvado sintético, era muito importante. O jogo era publicitado nas rádios, havia rumores de até ser transmitido na televisão local e nas redondezas não se falava noutra coisa. Toda a ilha parou para assistir à cerimónia de inauguração do arrelvamento do Estádio Municipal João Serra. A selecção da ilha de Santo Antão já se treinava há duas semanas (dois treinos por dia!) para receber o Eléctrico Futebol Clube de Ponte de Sor, Portugal!
No curto trajecto do hotel até ao estádio sentíamo-nos “Cristianos Ronaldos”, tal era a agitação à nossa volta. A vila estava cheia de pessoas e junto ao estádio era um verdadeiro mar de gente. Era ocasião para dizer: “Isto é o quê, pah? Isto é lindo!”

A cerimónia começou com pompa e circunstância, desde ministros ao bispo, os presidentes das Câmaras da ilha, o nosso presidente da Câmara, todos discursaram e trocaram presentes simbólicos. Nas bancadas repletas e nas imediações das mesmas estimava-se a presença de 3000 espectadores. A tarde estava soalheira e parecia que tudo brilhava, com destaque para o relvado sintético que tanto enchia de orgulho o Eng.º Orlando, presidente da Câmara local e nosso anfitrião principal. Desenrolaram-se curtos jogos das camadas mais jovens de onde se destaca o golo de Alex, o puto que já nos tinha maravilhado no jogo de rua que tínhamos feito com ele e os seus colegas. Entre nós ia crescendo a ansiedade de iniciar a partida e um nervoso miudinho ia fazendo comichão em alguns estômagos… Não se vivem dias como aquele muitas vezes, nem tão pouco oportunidades destas surgem frequentemente. Afinal de contas era o primeiro jogo internacional do Eléctrico, as bancadas estavam repletas de gente e a transmissão televisiva sempre se verificava. Tudo isso nos fazia sentir ao mesmo tempo pequenos e orgulhosos. Equipámo-nos e demos o grito de guerra com uma emoção especial. Entrámos em campo ao ritmo do chamamento dos nossos nomes um por um aos microfones da instalação sonora do estádio: “ Do Eléctrico de Ponte de Sor de Portugal, com o nº1: Sérgio, nº2: Pachá…” e assim sucessivamente. Com a equipa da casa aconteceu o mesmo com a diferença de que a ovação vinda das bancadas foi naturalmente maior. Perfilámos e ainda antes de começar o jogo fomos cumprimentados um por um, pelo presidente da Câmara local e pelo ministro da cultura e desporto de Cabo Verde. O pontapé de saída foi dado por Grunha, uma antiga estrela do futebol da ilha com a particularidade de nunca ter envergado umas botas de futebol durante a sua carreira. Assim, foi naturalmente descalço, com o seu pé direito calejado, que aplicou um pontapé na moderna e colorida bola de futebol. Eu e o capitão adversário acompanhámo-lo até sair de campo e finalmente ia começar a partida.

Em relação ao jogo em si não me queria alongar muito… O resultado final foi 3-1, sendo que marcámos primeiro, por Serrano, o nosso único goleador internacional (agora aturem-no!) e sofremos o empate ainda na primeira parte. Na segunda parte quebramos fisicamente. Através da cobrança de uma grande penalidade, os da ilha chegaram ao 2-1 e já no final a vantagem foi dilatada para 3-1. De referir a excelente e até surpreendente qualidade de alguns jogadores adversários, mas sobretudo a enorme capacidade física de todos, onde residiu, a meu ver, a grande diferença para a nossa equipa. No Eléctrico, destaques para as exibições de Panqueca e sobretudo de Pachá. A importância do jogo para a ilha de Santo Antão e para a sua selecção foi bem notória aquando dos festejos pela conquista do troféu, tanto por parte da equipa como do público. Quanto a nós… Fizemos a festa também, claro! Juntámo-nos aos mininos e era ver-nos a saltar abraçados a eles. E eles estupefactos, a adorarem nossa a reacção. Foi mais um belo episódio! Recebemos então as medalhas das mãos dos ilustres.
Depois era ver o Baleizão a ser entrevistado para a televisão e rádios, outros a falarem para a rádio, os putos todos a pedirem-nos os equipamentos, as botas, foi a loucura… A saída do estádio, já sem equipamentos, botas, caneleiras, foi escoltada pela polícia, não por uma questão de segurança, já que não houve nenhum registo de abuso de qualquer natureza (pediam tudo, mas sempre humildemente), mas por uma questão de haver espaço para fazermos o trajecto dos balneários até ao portão, tal era a quantidade de gente que ali estava. Descemos a rua até ao hotel e íamos comentando o que tínhamos acabado de viver. Estávamos ainda a saborear aqueles momentos, enquanto havia gente, sobretudo crianças que nos seguiam. Lembro-me de ver o Carlitos com dez miúdos à volta: “Carlitos, Carlitos, dá-me a camisola…” Podia ser a camisola, um aperto de mão ou um abraço, mas o que eles queriam mesmo era estarem ali junto de nós. E nós sem sermos as estrelas que eles mereciam que fossemos, mas a curtirmos cada segundo.



Depois do jogo jantou-se no hotel com a equipa adversária. Uma banda animava a malta e iam-se entornando as primeiras cervejas ouvindo mornas e funánás. Antes de começar houve ainda lugar a discursos: os presidentes da Câmara (os de lá e o de cá), o presidente o Eléctrico e os capitães de equipa. Aí é que a porca torceu o rabo… O bom do Roger a tremer enquanto tentava pôr em palavras um pouquinho do que a equipa tinha sentido naqueles dias. O objectivo não foi cumprido, o discurso saiu fraquinho. O que eu queria dizer era que tínhamos experienciado uma verdadeira lição de vida e que estávamos imensamente orgulhosos de ter representado a nossa terra e o nosso país, depois agradecia a oportunidade e dizia obrigado, ouvia as palmas e sentava-me, era só isso, tinha sido tão fácil... Mais tarde, depois do repasto foi diferente, cheios de confiança monopolizámos o palco e começamos a cantar umas modas, ora portuguesas (“Os meninos à volta da fogueira”), ora Cabo-verdianas (“Sodade, sodade, es nha terra Ponta do Sol…”), sempre bem acompanhados pela banda. Neste capítulo tenho que destacar a afinada participação de Mário Leitão, o surpreendente cantor galveense que já não largava o microfone. Estivemos bem! Saíram os jogadores adversários, entraram as miúdas do staff do estádio, para ensinar a malta a dançar as mornas. Alguns desenrascavam-se bem, outros nem tanto… Mais tarde na discoteca toda a gente deu um pezinho de dança e foram bebidos litros de ponche - grogue com mel e limão, acho eu - só sei que aquilo colava… Havia quem contabilizasse a quantidade de ponches, enquanto outros estavam interessados em dançar com o maior número de miúdas possível, enfim, foi uma folia bem engraçada! “Óh Nariná, ohhh Nariná…”“Ó puto, ó puto, depois tens que me arranjar essa foto….” Repetia o Pessoa para o Luis Carlos, enquanto este se assumia como o fotógrafo da noite.

O dia da partida chegou e foi com um brilhozinho nos olhos que, no nosso autocarro Toyota, fomos vendo Ponta do Sol pelo vidro de trás a ficar pequenina, ainda mais pequenina. Isto, claro, depois de termos tido uns quantos ”fãs” à porta do hotel a gritar “Eléctrico, Eléctrico”. Eram os nossos putos… No caminho até Porto Novo houve ainda lugar uma efeméride bem divertida. Passou na rádio a musica do Carlitos. Foi o delírio… “Alô, sou Carlitos, vim hoje da Roménia…” Os juniores assistiam mais uma vez espantados e por certo pensavam: “Quanto mais velhos piores…” E tinham razão!

O “Armas” já nos esperava no cais. O mar parecia mais agitado do que na vinda, com farrapos brancos levantados pelo vento, parecia que protestava a nossa partida da ilha. O sol reflectia-se no branco do barco e uma envolvência âmbar emprestava aquele momento algo de melancólico. O sentimento tão português, cantado em crioulo pela diva de São Nicolau, já parecia tomar conta de alguns olhares que se iam deixando perder num último vislumbre das montanhas.


Finalmente foi o Mindelo outra vez, menos puro, menos inocente, pagando a factura de já ser um centro urbano. E a viagem de volta, sem dormir, a dormir por aí, espalhados em cadeiras e pavimentos de aeroportos, a dormir no avião também. Lisboa já lá em baixo, cheia de sol a abraçar-nos de volta. Vínhamos diferentes, tínhamos aprendido, tínhamos crescido e por certo não iríamos ver a nossa realidade da mesma forma…